Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro o meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Acordo de manhã, pão sem manteiga
E muito, muito sangue no jornal
Aí a criançada toda chega
E eu chego a achar Herodes natural
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Depois faço a loteca com a patroa
Quem sabe nosso dia vai chegar
E rio porque rico ri à toa
Também não custa nada imaginar
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Aos sábados em casa tomo um porre
E sonho soluções fenomenais
Mas quando o sono vem e a noite morre
O dia conta histórias sempre iguais
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Às vezes quero crer mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: escute, amigo
Se foi pra desfazer, por que é que fez?
Mas não tem nada, não
Tenho o meu violão
Vinicius e Toquinho
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sexta-feira, 4 de junho de 2010
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Mar Portuguez - Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão resaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,
Mas nelle é que espelhou o céu.
Fernando Pessoa
sábado, 5 de dezembro de 2009
Antes máquinas ameaçadoras, hoje micro computadores domésticos
"Ao contrário do que vaticinara Artur Clarke, o físico e escritor autor de "2001 - Uma Odisséia no Espaço" (levado ás telas por Stanley Kubrick em 1968), a recente evolução tecnológica se orientou para o espaço interior dos microcomputadores e dos chips de silício, antes de povoar os planetas e o espaço sideral com bases e naves terrestres. O ano 2001 saudou a informática e vestiu os indivíduos (os não-varridos pelo arrastão neoliberal, naturalmente) - no aconchego de seus gabinetes - com teclados, mouses e monitores integrados ao micro, em vez de lançá-los à odisséia errante nos arredores de Júpiter, encerrados em módulos metálicos silentes, em litígio com gigantescas e alucinadas máquinas computacionais. Comunicação via Internet em lugar do isolamento ano-luzente. O silício (re)solvendo o silêncio.
" 2001 do silencio ao silício". Roland Azeredo Campos, Caderno Mais. Folha de S.Paulo, 25.03.01.
"Os recursos proporcionados pelos micros desenvolvidos a partir dos anos de 1980, desde os softwares voltados para as artes até as complexas simulações objetivando estudos científicos, agilizaram notavelmente a interdisciplinaridade e permitiram, das permutas entre os setores, a emergência de conexôes e parcerias imprevistas. Justifica-se assim a fusão vocabular expressa no título do presente livro. O subtitulo destaca os decursos desses estranhos veículos significantes arte-científicos que, movendo-se em sintonia nos tocam. E que, amalgamados, talvez se tornem proximamente um paradigma robusto. De foz em fora, entramos no século XXI. Sem a proliferação de naves e bases terrestes no sistema solar vaticinada pela ficção de quarenta ou cinquenta anos atrás. Sem o conflito com supercomputadores hostís, como o HAL de 2001 : Uma Odisséia no Espaço. Ao contrário : com micros amigáveis, que vestimos em viagens virtuais pelos túneis das telas de cristal líquido. A rigor, o périplo é dos signos, em trânsito pelas veias-teias de silício dos chips, e dos nossos neurônios, em vaivéns filiformes. Recebendo e rebatendo bits. Noves fora , Il primo bacio della´prile é nosso!
Cumpre-se a profecia peirciana: o homem potencializa sua vocação sígnica. "
In: ARTECIENCIA
Afluência de sígnos co-moventes.
Câmara Brasileira do Livro. São Paulo Brasil.
Coleção Big-Bang, dirigida por GITA K. GUINSBURG.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Separação
Separação, como temos medo dessa palavra, como nos dá frio na espinha e povoa nossos piores pesadelos. Sofremos só de por um instante imaginar separar-nos da pessoa amada, dos nossos pais, filhos, irmãos, avós, tios, sobrinhos, amigos, afilhados, cachorros, gatos...
Como dói, como traumatiza, como magoa essa experiência, e é uma das realidades mais difíceis de se aceitar, a separação.
Por outro lado, não podemos negar que é parte da vida, que é tão real quanto a união e ela não pode ser anulada ou ignorada. Uns podem dizer “Que pessimismo!”, outros “Não é bom falar destas coisas...” e com certeza vários se preocuparão “Deve estar acontecendo alguma crise para esse tema vir à tona.” mas a resposta é n.d.a, nenhuma das anteriores, sem nenhum componente auto-biográfico, são pensamentos sobre o tema.
Estamos nesta vida para viver, e a realidade é o que existe, não podemos ignorá-la. Sabemos que ela é feliz, alegre e prazerosa, ao mesmo tempo que injusta, triste, cortante e sombria. Uma não existe sem a outra, só sabemos o que é o tudo porque existe o nada, e essa dialética também funciona para o dentro e fora, assim como para o ter e perder.
Não é falta de sensibilidade, nem excesso de racionalidade, nem tantos adjetivos que nos venham à mente quando tratamos deste assunto, a maioria preocupantes e amedrontadores. É simplesmente conhecer o percurso, saber os prazeres e os perigos da jornada e navegar entre eles como bons marinheiros, bon vivants. E nada melhor que deixar o tema para quem entende, fale poetinha...
Soneto De Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
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